segunda-feira, 16 de outubro de 2017


INFLUÊNCIAS ORIENTAIS NAS IGREJAS FRANCISCANAS DO BRASIL

 Marília chegou da Bahia onde participou de um Congresso de historiadores da arte do Comitê Brasileiro de História da Arte. 

O historiador pesquisa, descobre coisas que foram vividas pelos homens de antigamente, fatos ainda não mencionados na história convencional.

Ela me diz: “Fizemos uma visita ao convento dos franciscanos em Paraguaçu, no Recôncavo Baiano. Você iria gostar de ver esse mosteiro, que tem uma história bonita de intercâmbio entre o Brasil e a Índia, e hoje está abandonado”

A Bahia era a porta de entrada dos antigos navegantes portugueses. Aqui chegavam as caravelas trazendo especiarias da China e da Índia, em troca de produtos brasileiros.
A Bahia foi a primeira região brasileira a inaugurar a síntese Oriente/Ocidente. Eu já pesquisei esse assunto um dia, quando participei em 1983 de um Congresso em Goa.

O Brasil na Carreira da Índia, do historiador Luiz Roberto Lapa, foi o livro que me permitiu conhecer essa história esquecida de intercâmbio comercial entre o Brasil e a Índia, fruto das relações inter-continentais entre os países tropicais.

Agora, os novos historiadores, movidos pelo interesse em descobrir, documentar e preservar o presente, estão dentro desse mosteiro abandonado, repensando a importância de conhecer essa história e preservar esse patrimônio arquitetônico.

Marilia nos diz: “Nessa visita, tive a oportunidade de sentir o impacto e a beleza de uma Igreja franciscana, situada em Paraguaçu, na beira de um grande rio, apresentando uma arquitetura e uma decoração de forte influência oriental. Me lembrou os templos indianos, construídos em formas piramidais, que se situam próximo aos rios.

Esse sentimento inicial foi enriquecido pela leitura do texto de Paulo Ormindo de Azevedo sobre as relações inter-coloniais e as influências orientais nos conventos franciscanos do nordeste. Nesse texto o historiador discute as relações artísticas e arquitetônicas entre o Brasil e a Índia durante o período colonial. Enfatiza a importância dos ornamentos de pedra construídos nos cruzeiros situados nos átrios das Igrejas franciscanas e das chinesices e esculturas que também ornamentam o interior dessas igrejas. Mostra ainda que essa influência não se dá apenas na decoração dos templos, mas aparece também nos partidos arquitetônicos de forma piramidal que se encontram nos templos hinduístas da região de Kerala e nas igrejas indo-portuguesas de Goa.

A história dessa Igreja como também a história de outras igrejas brasileiras, abandonadas e esquecidas ao longo do tempo, precisa ser relembrada, reescrita, restaurada e preservada pelos órgãos públicos ligados ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional”.(Depoimento dado pela historiadora Marília Andrés Ribeiro)

*Fotos de Marília Andrés Ribeiro e Almerinda da Silva Lopes

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terça-feira, 10 de outubro de 2017


EMOÇÃO E TÉCNICA II

O ensino das artes plásticas é individual, seguindo as possibilidades de cada artista em particular. O aluno, quando realmente tem talento, sempre acha os seus meios de expressão, e, às vezes, surpreende o mestre com suas descobertas.

         Apenas orientado no momento preciso, ele poderá progredir de um modo mais autêntico do que recebendo, cegamente, as ordens exteriores.

         A vivência artística se enriquece muito mais com a própria experiência e as próprias descobertas, do que com a preocupação exagerada de consultar os tratados de técnica e de matemática, à procura da maneira exata e correta de se fazer pintura.

         A pintura é fruto de trabalho, de sofrimento e de abnegação. Neste clima de pesquisa, a emoção não surge desordenada e inconsciente, como na criança.

         Ela é corrigida e aperfeiçoada pela técnica, e ordenada pela experiência do artista, no sentido de um progresso sereno e ininterrupto.

         A experiência, naturalmente, controla a emoção e o artista já amadurecido conseguirá a fusão da disciplina com a liberdade, que é o clima essencial para a criação ao mesmo tempo espontânea e consciente.
         Ele deve saber ser fiel a si próprio, respondendo ao seu impulso interior com a máxima sinceridade, sem deixar que nisto intervenha nenhum interesse externo.
         Suas emoções não podem ser antecipadamente programadas num itinerário. Delineia-se este com o tempo, olhando para trás, depois de trilhado o caminho. Nunca premeditado intelectualmente. A evolução normal de um artista não significa uma ruptura com o passado, mas sua continuidade. Às vezes, mais tarde, uma das fases anteriores é revivida, para se enriquecer de soluções novas. Fiel ao impulso nascido espontaneamente, dentro de sua alma, o artista se volta com entusiasmo para o trabalho, renovando técnicas, renovando formas, porém fazendo viver dentro delas o seu espírito, o seu modo pessoal de sentir as coisas. (Trecho do meu livro “Vivência e Arte”, editora Agir, 1967)

Atualmente, 50 anos depois da publicação deste texto, estou fazendo uma releitura da minha fase construtivista. Meus desenhos de via sacra da década de 50, com a utilização do computador, se transformaram em esculturas.

*Fotos de arquivo

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terça-feira, 3 de outubro de 2017


EMOÇÃO E TÉCNICA

A técnica deve ser posta no seu devido lugar, como uma subordinada da emoção criadora. Ela é importante, na medida em que orienta o artista no sentido de um aperfeiçoamento cada vez maior de seus meios de expressão. Auxilia-o a ser mais preciso e exato na realização de sua obra, orientando-o com os conhecimentos recebidos através de experiências alheias. É como que a gramática da pintura. A gramática corrige e aperfeiçoa a frase que foi concebida de uma ideia. As teorias também, em se tratando de artes plásticas, têm o mesmo papel. Vêm corrigir a ideia criadora do artista, às vezes imprecisa e confusa, dando-lhe uma forma clara e harmoniosa.

         Braque dizia: "Eu amo a regra que corrige a emoção".

         Mas não se dispensa a emoção em favor da regra. Não se ensina alguém a ser artista ditando-lhe processos teóricos, assim como não se ensina alguém a ser poeta, ditando-lhe regras gramaticais.

         É preciso ser visionário e disciplinado ao mesmo tempo, buscar a fonte da arte no espiritual  e depois trazê-la à realidade, com o auxílio dos conhecimentos recebidos.

         Embora as teorias tenham o seu papel no desenvolvimento do artista, pode-se, no entanto, ser bom pintor sem essa preocupação, pode-se ser apenas um artista intuitivo e ingênuo, progredindo à custa da própria experiência. Pode-se criar, como cantam os pássaros, sem regras e preceitos vindos de fora, apenas levado pela alegria de fazer surgir no mundo novas formas. Depende da cultura, das tendências e do meio em que o artista vive. Se ele for realmente artista, sua intuição o levará a um progresso espontâneo, baseado na experiência própria, sem o conhecimento das experiências alheias. Existindo a emoção criadora, existe arte. O que se não pode é pré-fabricar um artista. É ditar leis e teorias, esperando que destas leis nasça uma obra de arte. (Trecho do meu livro “Vivência e Arte”, editora Agir, 1967)

*Fotos da internet

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segunda-feira, 18 de setembro de 2017


QUEM TEM MEDO DE TEREZINHA SOARES?

Conheci Terezinha Soares durante um workshop em BH na década de 60 e desde então percebi o seu grande interesse pelas artes. Terezinha matriculou-se na Escola Guignard onde era considerada pelos professores como uma aluna muito criativa. Mais tarde, na década de 70 viajamos juntas para uma exposição em Washington DC, desta vez como companheira das artes.
Agora, depois de tantos anos, revejo Terezinha novamente voltando a atuar no circuito artístico da cidade e lançando um livro de crônicas.
Transcrevo abaixo um texto que escrevi sobre ela, e seu catálogo intitulado “Quem tem medo de Terezinha Soares?

Terezinha está de
Volta
Seja benvinda
Aconteceu em
São Paulo
No MASP
Expor no MASP
Não é para
Qualquer um.
E nossa mineira
De Araxá
Líder feminista
Dos anos 60
Pioneira
Da revolução
Feminista
Do confronto
Corajoso
Com a
Tradicional
Família.
Terezinha
Das performances
Das caixas
De fazer amor
Das atitudes
Corajosas
Sem temor
Foi agora
Agraciada
Com grande
Mostra no
MASP
De São Paulo.
“Quem tem medo
De Terezinha Soares?”
Pode ser que
Antigamente
Alguém teve
Medo
De quebrar
As estruturas
De perder
A proteção
De seus parceiros
Amarrados
ao passado
Tradicional.
Terezinha
Está de volta
E voltou
Para ficar.
Sua mensagem
Está viva
E não será
Esquecida.
Como mestra
Eu nunca
Esqueço
Os alunos
Talentosos
E vou lembrando
De fatos
De sua forte
Presença
No meio
Artístico
Da década
De 60.
Não precisou
De estender
Sua arte
Por muito
Tempo.
Sua mensagem
Foi feita e
Até hoje
Permanece
Como estrela
Que não
Para
De brilhar.
“Quem tem medo
De Terezinha Soares?”
É o título de
Seu livro
Editado
Em São Paulo.
Se houve medo
Já passou.
Seu recado
Já foi dado.
Agora é
Colher os louros
Desta homenagem
E viver o presente
Que inclui o
Passado e o
Futuro.
Pode chegar
Terezinha
E será bem
Recebida.
Sua arte é
Vigorosa
Corajosa.
Vai ficar
Em sua terra
Que é também
De Adélia Prado
E Carlos Drummond
E Guimarães Rosa
Pioneiros
De muitas ideias.
Minas lança
Ideias novas
E São Paulo
As divulga.

*Fotos da internet


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segunda-feira, 4 de setembro de 2017


UNIPAZ, 30 ANOS

Paramos o carro nos arredores de Brasília. Manhã de sol, vento fresco. Numa pequena tenda organizada dentro de um container azul, serviram água de coco. À frente um painel anunciava “UNIPAZ”. A granja do Ipê foi cedida em 1987 ao professor e psicólogo Pierre Weil para realizar o seu trabalho holístico e estendê-lo a todos os que já estavam preparados. Pierre foi presidente do Retiro das Pedras, tentou iniciar o seu trabalho ali, no alto das montanhas de Minas, mas a vida o conduziu para o planalto central.

Agora, estou em frente ao meu painel pintado para o salão principal da Universidade. Lembro-me de quando foi pintado, no meu atelier da fazenda, em cima de uma lona.
Levei tempo realizando este trabalho, que viajou para Brasília enrolado numa vara de bambu.

Eu fazia muito disso. Transportava quadros enormes para São Paulo, Rio e Brasília, enrolados no bambu. Agora vou me lembrando do tempo em que viajava para Brasília a fim de participar de workshops e dinâmicas de grupo.

As aulas holísticas eram dadas anexadas sempre às atividades artísticas, um trabalho de arte coletiva que eu introduzira como forma de integração de todas as energias. Foi a melhor forma de integrar essas energias num todo harmonioso e ao mesmo tempo prazeroso. Criar uma obra coletiva, sem um autor individual, sem comando, apenas dando incentivo e permitindo que a criação surgisse por si própria. Muitas vezes eu ficava exausta porque assimilava aquele conjunto de energias, mas o resultado final era ótimo, valorizando-se mais o processo do que o resultado.

Os baluartes da paz nos chegam quando nos empenhamos num trabalho de arte. Eles nos chegam silenciosos, dentro de cada um de nós. Leio o texto da Unesco, colocado em frente ao prédio da Unipaz:
“Uma vez que as guerras nascem no espírito dos homens, é no espírito dos homens que devem ser erguidos os baluartes da paz.”
A pedido de Pierre, submeti-me a um concurso para dar aulas em Brasília, na Universidade da Paz. Entrei com o meu currículo e usei o meu livro, “Os caminhos da Arte”, como roteiro da minha atuação na Universidade. Lembro-me de todas as sequencias desse concurso.

Agora estou mais uma vez em Brasília, revendo o passado.
Passamos pela cachoeira para tirar fotos. A cachoeira fica perto de uma construção de madeira com uma varanda. Ali ministramos vários workshops e assistimos muitas aulas.
O que aprendemos começa a fazer parte de nós mesmos. Somos todos Um, não existe separatividade entre as pessoas. Energetica e espiritualmente estamos ligados a tudo que existe, à água que cai em cascata muito branca, às árvores, às plantas, à vegetação do cerrado, às montanhas, aos mares, ao vento, às nuvens. Somos todos partes de um Todo.

Pierre tentou chegar à Unidade, reunindo psicologia, ecologia, religião, filosofia. Teve o mesmo insight holístico que eu tive também no Retiro das Pedras.
Ele morava na rua de baixo, mas recebeu também, na mesma ocasião, a mesma inspiração. Era preciso divulgar a integração que existe entre os seres humanos, a natureza, o universo. O meu modo de distribuir essas ideias foi um pouco através da palavra, mas principalmente através da forma, da cor e do incentivo à criação.
As artes plásticas ajudam também e Deus nos favoreceu com este canal de difusão da Paz.

José Aparecido soube compreender a visão de Pierre e aqui estamos na Granja do Ipê, frente à cachoeira, lembrando o passado e refletindo sobre o futuro.
Meu livro “Os caminhos da Arte” revela esta visão holística, este insight recebido numa madrugada em minha casa do Retiro das Pedras.

Agora me lembro: debaixo dessas árvores, sentada também num tronco de árvore, cantamos o Gayatri mantra, lembrando o workshop realizado no pátio em frente. Tingimos serragem com as cores básicas na véspera do evento.
No dia, 150 pessoas se reuniram no pátio. Seria vivenciada a dança de Shiva, o deus dançarino que criou o universo. Dividimos o grupo, distribuímos bolinhas de gude para representar as estrelas. Eram 500 bolinhas que foram divididas para os 150 participantes. Cada um segurava suas bolinhas e, ao comando de Shiva e ao toque de um tambor, elas eram jogadas no chão.
Uma pessoa riscava com giz o trajeto das bolinhas e os espaços eram preenchidos com serragem colorida. Ao final, uma grande Mandala foi criada, com dança e muita reverência. Usamos como trilha sonora a música I Ching, do grupo UAKTI.

Dançamos em torno da Mandala, e, sem nenhum comando, surgiu uma dança indígena improvisada, utilizando flechas retiradas do bambuzal em frente.
Sentir a Unidade através da arte é uma experiência fundamental.
Essas lembranças nos remetem ao passado, mas também se situam no agora, no presente.

A cachoeira continua fluindo, em cascatas, sempre seguindo o seu curso. Vai levando o passado e levará também o presente. Debaixo do bambuzal posso escrever melhor e perceber que um outro workshop holístico está sendo realizado dentro da cabana. Estamos esperando a Lydia, que já nos acenou da janela da cabana e nos fez sinal de espera. Pierre Weil já se foi para outro plano, ficou o Crema. Hoje há sempre gente trabalhando aqui, na educação, na psicologia, na espiritualidade, na arte.
A Unipaz foi uma conquista, que ela continue a dar seus frutos.
Aqui, neste lugar, sentimos florescer a paz.

*Fotos de Maurício Andrés


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terça-feira, 29 de agosto de 2017


CAMILLE CLAUDEL

Hoje vou falar
Da grande surpresa
Que todos
Tivemos
Ao ver a Ivana
No palco
Representando
Camille Claudel.
Realmente  é
Surpreendente
Ver uma peça
Tão dramática
Representada
Por Ivana.
Ela consegue
Transmitir
Para a plateia
A alma e
O sofrimento
De uma artista
Plástica
Que sofre a
Rejeição e
O abandono
Das pessoas
Que ela mais
Ama.
Camille Claudel
Foi grande
Na arte
E grande no
Sofrimento.
Suas cartas
Seus diários
Denunciaram
O sentimento
De ser
Injustiçada
E rejeitada
Afetivamente
E profissionalmente.
Camille Claudel
Viveu em Paris
Seu nome surgiu
Do impacto
De suas esculturas
Que ficaram famosas
Depois de sua morte.
Aconteceram mostras
E o mundo inteiro
Conheceu a
Grandeza
De sua arte
Mas a artista
Incompreendida
E rejeitada
Terminou seus dias
Num manicômio.
As cenas do teatro
Comovem o espectador
Porque são
Extremamente verdadeiras.
Ivana Andrés
Dirigida por
Luciano Luppi
Apresentou um espetáculo
De grande autenticidade.
Dramático
E sensível
Ele comove
O espectador
Interpretando
Uma realidade
Mais profunda
Escondida nos
Labirintos
Do ser humano.
Teatro é vida
E a vida ali está
Para denunciar
E promover mudanças.
Ivana neste espetáculo
Mostra o seu potencial
Dentro das diversas
Formas de arte
Desenhista, cantora
Cenógrafa
Dramaturga
E agora intérprete.
Esta forma multimídia
De fazer arte
É uma característica
Do século XXI.

*Fotos de Carolina Lobo

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segunda-feira, 21 de agosto de 2017


KING, O ENTALHADOR

Cada instante criador corresponde à intensidade de um momento de vida. Ele é o esquecimento do passado com todo o acúmulo de conhecimentos e o despertar do presente em plenitude e riqueza. 
O ato de criação é um ato de presença. Criar é viver no presente. Neste aqui e agora, estão contidas nossas vivências individuais, enriquecidas das vivências do mundo a que pertencemos. 
Esse mundo está conosco, não podemos nos separar dele. O momento criador, quando vivido intensamente, é um retorno à Unidade Inicial. É, portanto, um momento de intensa alegria. Por meio da intuição, as ideias se harmonizam. 
A intuição é a claridade que vem de dentro de nós mesmos e não buscada fora, em ensinamentos. Desperta num momento inesperado, quando se transcende o pensamento lógico. 

O encontro intuitivo do artista com a totalidade é traduzido de forma admirável nos versos de Chuang Tzu, o poeta do Taoísmo:

O entalhador de madeira
Khing, o mestre entalhador, fez uma armação
Para os sinos,
De maneira preciosa. Quando terminou,
Todos  que aquilo viram ficaram surpresos.
Disseram
Que devia ser obra de espíritos.
O príncipe de Lu disse ao mestre entalhador:
“Qual é o seu segredo?”
Khing respondeu: “Sou apenas operário:
Não tenho segredos. Há só isso:
Quando comecei a pensar no trabalho que me
Ordenaste,
Em ninharias, que não vinham ao caso.
Jejuei, a fim de pôr
Meu coração em repouso.
Depois de jejuar três dias,
Esqueci-me do lucro e do sucesso.
Depois de cinco dias,
Esqueci-me do louvor e das críticas.
Depois de sete,
Esqueci-me do meu corpo
Com todos os seus membros.
Nessa época, todo o pensamento de Vossa Alteza
E da corte se esvanecera,
Tudo aquilo que me distraía do trabalho
Desaparecera.
Eu me recolhera ao único pensamento
Da armação do sino.
Depois, fui à floresta
Ver as árvores em sua própria condição natural.
Quando a árvore certa apareceu a meus olhos,
A armação do sino também apareceu, nitidamente,
Sem qualquer dúvida.
Tudo o que tinha a fazer era esticar a mão
E começar.
Se eu não houvesse encontrado esta determinada
Árvore,
Não haveria
Qualquer armação para o sino.”
“O que aconteceu?”
“Meu próprio pensamento unificado
Encontrou o potencial escondido na madeira;
Deste encontro ao vivo surgiu a obra
Que você atribui aos espíritos.”

Esse poema de Chuang Tzu descreve a preparação do artista para o trabalho. É preciso um longo e cuidadoso preparo, mas também esvaziamento da mente. (trecho do meu livro “Os caminhos da Arte”, Editora C/Arte, 2015)

*Fotos da internet


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