segunda-feira, 26 de dezembro de 2016


PELAS VEREDAS DE SI III


Dando continuidade ao depoimento de Artur Andrés sobre os exercícios que Gurdjieff ensinava para seus seguidores, transcrevo o texto abaixo:

“Para acabar com essa preguiça existencial, uma das propostas de
Gurdjieff é colocar o corpo para se mexer, por meio da prática de uma
série de movimentos e danças sagradas desenvolvidas por ele.

Gurdjieff dava enorme importância à percepção do corpo, que ele
dizia ser uma porta de acesso a níveis impossíveis de ser atingidos só com a
mente. Por isso, criou os movimentos e danças sagradas. Assim como as
danças giratórias dos dervixes sufis, esses movimentos demandam tanta
atenção para serem executados que, com isso, a pessoa entra num estado de
consciência mais afinado. 

É similar ao que ocorre com diversas outras práticas corporais, como a yoga, o tai chi ou o kung fu, todas extremamente válidas. No caso das danças sagradas, elas ainda trabalham junto com amúsica, que ajuda ainda mais a estabelecer uma profunda conexão interior.

Na realidade, a música não tem outra função além desta, nos
despertar para níveis superiores de consciência. No caso das músicas
compostas por Gurdjieff, elas trabalham com base na lei de ressonância.
Por exemplo, quando se toca uma determinada nota num instrumento, se há
outro instrumento próximo, ele ressoa a mesma nota. E o mesmo acontece
conosco. Quando determinada melodia é tocada, nosso universo interior
também ressoa essa melodia, na mesma intensidade. Assim, a música não
só toca o nosso centro emocional, os nossos sentimentos, como os
transforma, nos colocando num estado mais harmonioso, em sintonia com
as vibrações superiores de nossa alma.

Gurdjieff também criou exercícios para se desenvolver o
autoconhecimento durante as tarefas do cotidiano.
Esses exercícios servem  para estimular o que chamamos de
lembrança de si. Um deles é simples: durante todo o dia, você vai carregar
algum objeto, um jornal, por exemplo, mas não vai ler. Você deve levá-lo
com você o tempo todo, numa reunião na empresa, no almoço, seja onde
for, você leva o jornal, mas não lê. A função desse jornal é apenas servir
como um “despertador”, para que, sempre que olhar para ele, você se
lembre de si mesmo, de qual é o seu propósito na vida. Ou você pode botar
um bago de feijão dentro do sapato; pode usar um modelo de tênis num pé,
e outro modelo no outro; pode usar meias de cores diferentes. Cada atitude
dessas é um despertador para ajudá-lo a acordar. Em geral, se usa cada
objeto durante uma semana. Depois disso, ele começa a perder o efeito, e a
pessoa deve achar outro despertador.

Um outro “despertador” que Gurgjieff recomendaria consiste numa situação interessante: sempre que passar debaixo de uma porta, você
deve procurar lembrar-se de si, de sentir a si mesmo passando sob aquela
porta. Parece simples, mas, na maioria das vezes, a pessoa só se lembra do
exercício, ou seja, só se lembra de si mesma após ter atravessado a porta.
Isso mostra o nosso nível de desatenção, de desconexão interior. Por isso,
na base de tudo, está o exercício da lembrança de si. E o que é essa
lembrança de si? É eu me dar conta de que, ao mesmo tempo em que estou
com a atenção voltada para fora, outra parte da atenção também é
direcionada para mim. Este é o ponto-chave: se você consegue lembrar-se
de si a cada instante da vida, está resolvido o problema.

Isso, claro, não quer dizer que seja uma lembrança só da cabeça. É
preciso incluir todo o organismo nesse processo. Saber relaxar o corpo
conscientemente, por exemplo, é muito importante, pois é através da
sensação corporal que vou entrar em meu edifício interior. A porta de
entrada é sempre o corpo. A sensação corporal deve estar sempre presente.
Com isso, uma simples conversa pode se transformar numa oportunidade
de trabalho interior. Consiste em  procurar estar presente a meu corpo, sentir alguma parte de mim mesmo, falando de um lugar central de meu ser, em vez de ficar tagarelando a partir da cabeça. .” (Trechos da entrevista de Artur Andrés com Lauro Henriques Jr, publicada no livro “Palavras de Poder”, vol 1, Editora Alaúde)

*  Artur Andrés Ribeiro é doutor em música pela UFMG, onde leciona. É um dos fundadores do grupo Uakti e já trabalhou com Milton Nascimento, Paul Simon e Philip Glass. É um dos coordenadores do Instituto Gurdjieff de Belo Horizonte.



*Fotos da internet

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terça-feira, 20 de dezembro de 2016


PELAS VEREDAS DE SI II

Continuação da entrevista de Artur Andrés com Lauro Henriques Jr, publicada no livro “Palavras de Poder”:

“No livro Encontro com Homens Notáveis, Gurdjieff  fala sobre
como seria o ser humano ideal: “Só merecerá o nome de homem e
poderá contar com algo que foi preparado para ele, desde o Alto,
aquele que tiver sabido adquirir os dados necessários para
conservar ilesos tanto o lobo como o cordeiro que foram confiados
à sua guarda”. Nesse caso, a palavra lobo simboliza o aspecto mais básico do ser humano, o que inclui os instintos, a parte motora, etc. Já o cordeiro
simboliza o conjunto dos sentimentos. Ou seja, a questão não é matar o
lobo, como a idéia defendida na cultura ocidental, de que se deve
extirpar tudo o que é mais grosseiro, em nome de algo sublime, do alto.
O desafio é ver que, na realidade, lobo e cordeiro são partes
fundamentais de nossa essência. E cabe ao homem, por meio de sua
consciência, criar condições para a coexistência dessas duas esferas de
si.

É como aquela história popular, de um homem que tem um lobo,
uma cabra e uma couve, e precisa transportar os três de uma margem
para outra do rio. Acontece que ele só pode levar uma carga por vez no
barco, e, se ficar vigilante, corre o risco de o lobo comer a cabra e de a
cabra comer a couve. A solução da história não só exige que o
barqueiro use de toda sua engenhosidade, mas também que ele não seja
preguiçoso, pois, para atingir seu objetivo, terá de cruzar o rio várias
vezes. Ou seja, só merecerá o nome de homem aquele que, com
consciência, zelar por todos os aspectos de sua essência, todas as
formas de seu ser.

Agora, no caminho até esse homem ideal, muitas vezes a maior
dificuldade está justamente em dar o primeiro passo. Como o próprio
Gurdjieff disse: “O trabalho sobre si mesmo não é tão difícil quanto
desejar se trabalhar, e tomar essa decisão”.
Exatamente. Não há nada mais difícil do que dar o primeiro passo,
sair da inércia. Essa tomada de decisão é essencial. É como no caso de um
carro, que precisa do start do motor para entrar em movimento. Depois que
começa a andar, tudo fica mais fácil, ele se torna até um objeto mais leve.
Por exemplo, se você colocar o pé debaixo do pneu de um carro parado, vai
sentir um peso enorme, de centenas de quilos. Agora, se o carro passar a 60
km/h sobre seu pé, talvez você nem sinta nada. Ou seja, a questão é dar
esse start, é sair desse estado de preguiça mental, física, emocional, desse
embotamento em que muitas vezes nos encontramos. E isso vale para
qualquer coisa na vida. Seja para fazer um regime, praticar uma atividade
física, meditar, realizar um trabalho de autoconhecimento. Não há passo
mais importante do que o primeiro passo.

Mas talvez o maior empecilho para dar esse primeiro passo seja a
nossa mania de deixar tudo para amanhã. Como diz a frase que
Gurdjieff escreveu no toldo de seu centro de estudos na França:
Aquele que tiver se libertado da ‘doença do amanhã’ terá uma chance
de obter o que veio procurar aqui”.

Sem dúvida, essa “doença do amanhã” é o que nos mantém passivos.
Passamos a vida adiando aquilo que sabemos que deve ser feito, deixando
tudo para o outro dia. É uma espécie de entendimento deturpado da teoria
das encarnações, achando que está tudo bem se eu não fizer as coisas agora,
pois terei infinitas vidas para resolver isso. Pura ilusão. Uma vida é
perfeitamente suficiente para a pessoa resolver todas as suas questões, mas,
para isso, tem que se trabalhar. Não dá para deixar tudo para amanhã.
Afinal, ninguém sabe o que vai acontecer daqui a um minuto, muito menos
daqui a 24 horas. Por exemplo, será que vou estar vivo amanhã?
Este é um ponto essencial: nos lembrarmos de que a morte pode
ocorrer a qualquer momento. Gurdjieff criou até um exercício para isso:
várias vezes ao dia, a pessoa deve parar, por 1 ou 2 minutos, e rever o que
fez na última hora que passou, como se fosse sua última hora de vida. E,
daí, deve se perguntar: “Se eu morresse agora, estaria feliz com o que fiz
nessa última hora? Será que, de fato, fiz o meu melhor, fui mais aberto às
pessoas, mais compassivo, mais atento a mim mesmo?”. Essa consciência
da morte muda nossa relação com a própria vida. Em vez de ser algo que
nos dá pânico, a morte se torna uma aliada, que nos mantém mais
conscientes do que devemos fazer. Aí, então, já não existe mais essa
“doença do amanhã”, essa preguiça existencial – a vida é hoje.” (Trechos da entrevista de Artur Andrés com Lauro Henriques Jr, publicada no livro “Palavras de Poder”, vol 1, Editora Alaúde)

*  Artur Andrés Ribeiro é doutor em música pela UFMG, onde leciona. É um dos fundadores do grupo Uakti e já trabalhou com Milton Nascimento, Paul Simon e Philip Glass. É um dos coordenadores do Instituto Gurdjieff de Belo Horizonte.

*Fotos da internet

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GURDJIEFF - PELAS VEREDAS DE SI I

Dando prosseguimento às nossas reflexões sobre arte e espiritualidade, manifestadas através de grandes artistas internacionais, especialmente pintores, vamos agora refletir sobre a arte e o desenvolvimento humano, uma proposta de Ivan Ivanovich Gurdjieff. Transcrevo abaixo trechos da entrevista de Artur Andrés com Lauro Henriques Jr, publicada no livro “Palavras de Poder”:

“Os índios Sioux contam que, certo dia, o Criador reuniu todos os
animais da criação e disse: “Quero esconder algo muito importante dos
seres humanos, que só lhes será revelado no dia em que estiverem prontos
para isso. Trata-se da compreensão de que são eles mesmos que criam a sua
própria realidade”. A águia logo falou: “Dê para mim, que vou levar este
segredo para a lua”. “Não”, disse o Criador, “Um dia eles irão até lá e o
acharão”. O salmão, então, sugeriu: “Vou enterrá-lo nas profundezas do
oceano”. “Não, eles também irão até lá”, respondeu o Criador. Foi a vez do
búfalo: “Oh, Senhor, me dê, que vou enterrá-lo no fundo mais fundo das
Grandes Planícies”. “Não adianta, eles rasgarão a pele da Terra e, mesmo
lá, o encontrarão”. Foi quando a venerável toupeira, que, por viver no seio
da Mãe Terra, não vê com olhos físicos, mas, sim, espirituais, disse:
“Coloque esta verdade dentro do próprio ser humano”. E o Criador
respondeu: “Está feito”.

“Nascido na Armênia, então parte do Império Russo, Gurdjieff criou,
no início do século 20, um sistema de ensinamentos que alia o treino
intelectual a uma variedade de práticas, como meditação, música e dança.
Influenciado pelas tradições orientais, como a dos sufis muçulmanos, ele
chamava seu sistema de “trabalho sobre si”, enfatizando que o despertar
espiritual se dá a partir de um esforço de perscrutar e transformar a si
mesmo. “Uma frase emblemática de Gurdjieff é esta: ‘Não há injustiça no
mundo.Tudo acontece exatamente como tem que acontecer.
Se queremos mudar o curso de nossa vida, precisamos conhecer as forças
que atuam sobre nós e, a partir dessa consciência, criar meios de nos
libertarmos dessas forças”.
 Gurdjieff dizia que a humanidade vive num estado de sono hipnótico, como se fôssemos todos sonâmbulos.

Basta olhar para ver o quanto vivemos nesse estado de letargia,
fazendo as coisas de forma automática, sem consciência. Quase todas as
nossas ações são de natureza mecânica. Nossas ações e nossas relações
também. Por exemplo, passamos a vida inteira preocupados com o que os
outros acham de nós, com o que podem pensar a nosso respeito. E vamos
agindo em função dessa identificação com a opinião do outro, buscando
ganhar a sua aprovação. Agora, será que aquilo que o outro pensa de mim é
tão importante assim? Aliás, será que ele realmente está pensando algo de
mim? Na maioria das vezes, a resposta é não. Mas eu não percebo isso.
Assim como não percebo meu próprio corpo.
Ninguém se dá conta, mas estamos o tempo todo submetidos a
milhares de tensões musculares inúteis, pura perda de energia. E essa
tensão constante só existe por uma razão: achamos isso normal. É preciso
rever esse desequilíbrio interno, tampar esses vazamentos de energia e
atenção. E é aí que entra o que chamamos de “trabalho sobre si”. Se o ser
humano quer, de fato, atingir todo o seu potencial, se quer sair desse estado
vegetativo, despertar do sono que o escraviza, precisa buscar o
conhecimento de si mesmo.” (Trechos da entrevista de Artur Andrés com Lauro Henriques Jr, publicada no livro “Palavras de Poder”, vol 1, Editora Alaúde)

*  Artur Andrés Ribeiro é doutor em música pela UFMG, onde leciona. É um dos fundadores do grupo Uakti e já trabalhou com Milton Nascimento, Paul Simon e Philip Glass. É um dos coordenadores do Instituto Gurdjieff de Belo Horizonte.

*Fotos da internet

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

terça-feira, 6 de dezembro de 2016


EXPOSIÇÃO “DESENHOS”

O texto abaixo, mostrado na exposição de Paulo Laender, é uma introdução de minha autoria, ao catálogo da sua primeira exposição coletiva realizada também no Minas Tênis Clube na década de 1960.

“O desenho como base de toda e qualquer forma de arte é aquele que desperta a sensibilidade do artista para ver as formas da natureza e recriá-las.
Não será nunca um desenho rígido, acadêmico, mas uma disciplina necessária, uma educação da capacidade de observar e de sentir.
O desenho simples, linear, bem construído, visando uma compreensão maior da composição, constitui o primeiro passo para a formação do jovem artista.
 Hoje o desenho pode equilibrar-se perfeitamente com as outras artes, obedecendo em princípio às mesmas necessidades plásticas. Linhas e massas, texturas e nuances, expressam-se por si, falando sua própria linguagem. Desenhar bem não é necessariamente copiar bem. A densidade maior ou menos dos traços, as linhas que se cortam, a mão que se comprime nervosamente, para depois expandir-se de maneira mais leve, constituem a mensagem sensível da alma do artista, difundindo o seu pensamento mais profundo. O desenho traduz um estado de alma, e o traduz de modo mais direto do que as outras formas de arte, onde às vezes a necessidade técnica condensa e controla a emoção criadora.

Aqui estão três jovens desenhistas reunidos numa primeira exposição.

Paulo Laender, com um desenho equilibrado, meditado, procura o tema de barcos e figuras centralizando a composição. As formas surgem dentro de outras formas, num ritmo organizado e inventivo, revelando vida interior e grande capacidade de concentração no trabalho.

Antônio Eugênio Salles Coelho, usando também o mesmo material, valoriza a textura dos grandes espaços com uma infinidade de pequenos traços, que não chegam a determinar, mas apenas sugerir o mundo fantástico das formas orgânicas.

Luiz Lanza, utiliza-se da figura humana demonstrando grande segurança em seu traço rápido, que, muitas vezes é interrompido, para acentuar a expressão da forma através da linha inacabada.

Aí estão seus trabalhos e o esforço de muitos dias e noites dedicados à arte. Espero que eles sirvam de estímulo  a outros jovens e de incentivo ao Departamento Cultural e Artístico do Minas Tênis Clube que, de maneira tão simpática se prontificou a auxiliá-los.
Maria Helena Andrés.” (Apresentação do catálogo da exposição “Desenhos”)

*Fotos de arquivo


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segunda-feira, 28 de novembro de 2016


PAULO LAENDER, UMA TRAJETÓRIA


 Estou na Galeria de Arte do Minas Tênis Clube, percorrendo uma exposição de Paulo Laender. Ele mostra sua trajetória na arte, desde a sua primeira exposição no Minas Tênis Clube, a convite de Palhano Junior. Na ocasião ele mostrou desenhos de 1963. No catálogo desta mostra coletiva  estão : Paulo Frade Laender, Luiz Antonio Lanza e Antonio Eugênio de Salles Coelho. Para esses três artistas, a vida foi mostrando caminhos diferentes.

Paulo Laender viveu etapas diversas de sua arte, sempre conservando uma ligação de uma fase com a outra.

Talvez poderíamos dizer: crescimento orgânico, como uma árvore que vai conservando as características de sua espécie e vai crescendo, tomando formas variadas mas sempre ligadas umas com as outras, com uma coerência impressionante. Exemplo de Unidade na Diversidade. Isto porque na diversidade de materiais, gravuras em metal, desenhos, pinturas, esculturas, há sempre uma unidade que caracteriza o artista.

Paulo Laender foi meu aluno, e desde os desenhos dos primeiros barcos, já demonstrava a sua escolha pelas formas curvas. Há também uma característica que nos mostra a busca dessas formas curvas. Os barcos de 1963 nos mostram o jovem talento despertando para uma viagem ao desconhecido.  O barco simboliza viagem e Paulo Laender viajou, percorreu o mundo, mas agora em seu atelier de Nova Lima, continua a grande viagem pelos caminhos da arte. O perfeccionismo de suas obras é fascinante e a sensualidade de suas formas nos lembra os grandes mestres do barroco mineiro. Os portugueses trouxeram para nós o barroco e, em terras brasileiras, produziram suas melhores obras que até hoje estão nas igrejas de Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey e Sabará.

Paulo retoma o barroco em seu espírito, transcendendo a forma e elevando-a a um plano de grande contemporaneidade.
Ele é um artista barroco e contemporâneo, está presente no seu tempo, corajosamente enfrentando as dificuldades que a arte nos impõe. Em suas esculturas, inspiradas em andanças pela Índia, admiramos a figura de Ganesh, aquele que abre os caminhos. Sem reproduzir a figura de Ganesh, ele nos mostra o seu espírito e a sua atitude resoluta e firme.

Voltando ao Brasil, encontramos o escultor trabalhando na forma de  barcos. Grandes troncos de árvores são esculpidos lembrando a forma dos nossos barcos indígenas e dos barqueiros do São Francisco.
Agora, o barco não é mais desenhado, mas esculpido na madeira laminada, colada e cavilhada, característica muito especial de seu estilo como escultor. Paulo desce às nossas origens, rebusca seus antepassados indígenas e os artistas e artesãos que construíram o patrimônio artístico de Minas Gerais.

Ser universal e ao mesmo tempo regional é a grande lição que este artista mineiro está dando para as gerações futuras.

Paulo Laender é um artista consciente, maduro. Não busca modismos nem influências externas, mas é dentro dele mesmo, em seu interior que ele vai buscar motivações para o seu trabalho.

Esta busca interior às vezes é também figurada em esculturas ou objetos, onde outras formas menores estão colocadas mostrando o mundo externo e o mundo interno que continua existindo em toda a natureza e na criação.

*Fotos de Eliana Andrés

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segunda-feira, 21 de novembro de 2016


ABSTRACIONISMO E ESPIRITUALIDADE III

Vários artistas ocidentais têm buscado expressar a instantaneidade do momento criador, captando alguns dos mais característicos símbolos orientais. Na intensidade emocional do gesto, aproximam-se da escrita chinesa e, procurando o depuramento da forma, muitas vezes trazem à luz formas semelhantes às mandalas tântricas. O Abstracionismo, portanto, seja em seu aspecto informal, seja em seu aspecto geométrico, constitui uma aproximação do Oriente com o Ocidente.

Essa busca de valorização do momento presente, da instantaneidade da criação, introduziu-se na arte do Ocidente por intermédio de Mathieu, na França, e da Action Painting , nos EUA. Mathieu declara na  Analogia da Não Figuração :

"A atividade do artista, paralela à do sábio e à do santo, comunica-se com todas as forças vivas do cosmos e aproxima-se do pensamento científico moderno, no qual os meios de apreensão do universo já não são fornecidos só pela razão e pelos sentidos."

Proclamando a necessidade do artista de realizar a síntese da arte e vida, Mathieu buscou conhecer o mundo fazendo  viagens e procurou o encontro consigo mesmo nas meditações. Seus quadros, realizados na maior velocidade para apreenderem o mais rápido possível a essência criadora, assemelham-se à caligrafia oriental.

Nos EUA, Jackson Pollock, Mark Tobey, Franz Kline, Theodorus Stamus, James Brooks, William de Kooning, Gottlieb e outros iniciaram o movimento da  Action Painting , que enfatizou intensamente a pintura gestual e o automatismo psíquico. O método de Pollock foi o de entrar no processo criador, submergindo na pintura como o calígrafo chinês, a fim de transmitir a energia  Ch’i. Seus quadros, de um intenso grafismo, assemelham-se à escrita do Extremo Oriente e o seu modo de pintar lembra o dos índios navajos, que vertiam areia colorida no solo, a fim de marcar seus talismãs.

Mark Tobey, influenciado pela filosofia  Zen, usou como suporte quadros menores e tintas que permitiam rápida secagem, para conseguir, no ato de pintar, a simultaneidade da ideia e da realização.

A arte abstrata possibilita uma comunicação direta com as forças mais profundas do ser humano. Neste encontro consigo mesmo, pode-se descobrir a fonte comum que dá origem a outras formas de arte, como a dança e a música.
Vivenciar o ritmo na arte é também descobrir o ritmo de nossa própria vida. (Caminhos da Arte, 3° Edição, Editora C/ARTE)

*Fotos da internet

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segunda-feira, 14 de novembro de 2016


ABSTRACIONISMO E ESPIRITUALIDADE II

É entre os adeptos do Abstracionismo que encontraremos os depoimentos mais importantes sobre a arte como transformadora do homem.

Testemunhos de artistas deixam transparecer a mesma ideia religiosa de encontro com a essência do Ser. Vejamos os depoimentos de Alfred Manessier, conhecido pintor e artesão abstrato:

“A criação artística supõe (...) duas condições. Primeiro, não dizer “eu quero”, porque a exteriorização dos estados interiores exige uma espécie de abandono de si mesmo; em seguida, muito amor: só ele permite “levar” o assunto até ao seu termo, até que ele se humanize a ponto de ganhar um valor geral.
A arte da não figuração parece-me ser a possibilidade atual pela qual o pintor melhor pode subir até à sua realidade e retomar consciência do que é essencial em si. É só a partir deste ponto reconquistado que ele poderá, depois, reencontrar o seu peso e revitalizar até a realidade exterior do mundo (...). Se o homem é uma hierarquia de valores, sua aparência exterior não é mais que um fantasma transparente, se estiver vazio de conteúdo espiritual.”

Este “abandono de si mesmo”, de que nos fala Manessier, é a receptividade diante do desconhecido e o caminho para a espontaneidade criadora, destituída de qualquer premeditação. A fim de exteriorizar puros estados interiores, torna-se absolutamente necessário o vazio de intenções. O ato de pintar, dentro desta atitude, é a tomada de consciência do essencial. O Abstracionismo, tanto no seu aspecto geométrico quanto no informal, partiu para a conscientização da síntese das artes germinadas no próprio processo criador.

Cores e sons, gestos e dança encontram-se dentro do ato criador.

Penso que há uma fonte comum entre o pintor e o bailarino, uma certa maneira de viver os ritmos. O pintor é como um bailarino que reduz a dança aos seus aspectos mais essenciais.

Para mim, o quadro não pode ser o resultado de uma ideia preconcebida. A parte de aventura é nele muito importante e, é, de resto, essa parte de aventura que é finalmente decisiva na criação. No começo há um ritmo que tende a desenvolver--se: é a percepção desse ritmo que é fundamental, e do seu desenvolvimento depende a qualidade viva da obra.

As artes plásticas vêm assimilando, desde meados do século XIX, o processo de síntese Oriente-Ocidente. A influência oriental manifestou-se com nitidez na arte de Gauguin e Van Gogh, nos arabescos do Art Nouveau  e, mais tarde, nos símbolos de Kandinsky, o primeiro artista abstrato. A filosofia Zen-budista, incentivando a espontaneidade, encontrou os artistas ocidentais preparados para recebê-la.

 O Abstracionismo Informal, que se espalhou pelo mundo a partir da segunda metade do século XX, despertou a espontaneidade e a instantaneidade na arte. Deu-se ênfase ao movimento e à rapidez. O artista, desligando-se de fatos históricos e narrativos, afastando-se de modelos e cenas de sua região, buscava um contato consigo mesmo. Esvaziando a mente de medidas e cálculos, deixava--se guiar pelo gesto imediato, podendo assim alcançar o estado denominado pelos zen-budistas  de  Satori. 
(Caminhos da Arte, 3° Edição, Editora C/ARTE)

*Fotos da internet

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