segunda-feira, 26 de junho de 2017


PRÊMIO ABCA – 2016

Recebi esta carta da ABCA situada em São Paulo. Transcrevo abaixo a carta que me enviaram.

 “A Associação Brasileira de Críticos de Arte – ABCA – anuncia os nomes dos artistas visuais, curadores, críticos, autores e instituições culturais vencedores do Prêmio ABCA, segundo avaliação de seus membros. A premiação anual contempla dez categorias que apontam os destaques do cenário das artes visuais que mais contribuíram para a cultura nacional em 2016. O Prêmio ABCA ainda põe em evidência personalidades por meio de homenagens e aponta destaques no cenário das artes plásticas.
No ano de 2016 a única artista mineira a ser contemplada com uma homenagem foi Maria Helena Andrés pela sua trajetória exemplar. Foram contemplados também as seguintes personalidades: Raul Córdula, Tadeu Chiarelli e Mirian de Carvalho (críticos); Abraham Palatnik, José Rufino, Francisco Brennand, Juarez Paraíso, Gontran Guanaes Netto, Gisele Binguelmann e Antonio Carelli (artistas); Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes (curadores) e Justo Werlang (personalidade atuante no meio artístico); e as seguintes Instituições Culturais: SESC/Brasil, Caderno Ilustrada/Folha de S.Paulo, Santander Cultural/ Porto Alegre, Museu Lasar Segall/São Paulo e Pinakotheke Cultural (Rio de Janeiro).
Os prêmios serão entregues no dia 23 de maio, terça-feira, às 20 horas, em cerimônia no Teatro do SESC Vila Mariana, em São Paulo.”

Como não foi possível comparecer, enviei para eles a carta abaixo.

Prezada Maria Amélia ,
Sua carta, muito afetuosa, me comoveu profundamente. A minha presença em São Paulo durante a homenagem seria para mim um motivo de glória. Ali eu poderia encontrar amigos, conhecer pessoas brilhantes que também estarão recebendo esta importante premiação.
Estarei ausente, mas, muito perto de vocês neste momento.  Devido a minha idade, muitas vezes não posso estar presente às comemorações, mas tenho certeza que minha filha Marília me representará e ao Instituto Maria Helena Andrés, da qual é presidente.
Agradeço de coração a todos aqueles que me julgaram merecedora deste prêmio e gostaria de recebê-los aqui em Belo Horizonte a fim de trocarmos ideias sobre arte. Meu Instituto está localizado em Brumadinho muito próximo a Inhotim. 
Me lembro das mudanças ocorridas no Brasil com o impacto da Primeira Bienal de São Paulo. Formávamos em Belo Horizonte um grupo independente de artistas ligado a São Paulo e constituímos a vanguarda das artes em Minas.
Aprendi muito com as grandes mostras internacionais e a possibilidade de visualizar de perto exposições retrospectivas de Picasso, Klee, Kandinsky, Mondrian, Braque, Matisse e muitos outros. Todas elas constituem o meu acervo de memórias e vivências inesquecíveis.
Meus amigos daquela época, que buscavam uma nova linguagem nas artes do Brasil, já não estão aqui. Me lembro dos encontros promovidos por Milton da Costa e Maria Leontina. Devo a eles incentivo e apoio às mudanças direcionadas para a arte construtiva. O grupo de Minas, herdeiro do mestre Guignard, buscava uma linguagem nova, na ruptura do figurativo para o abstrato.
Para uma artista residente nas montanhas, afastada geograficamente do  eixo Rio/São Paulo, a possibilidade de percorrer as grandes mostras da Bienal e participar das palestras de Mario Pedrosa, Lourival Gomes Machado e vários outros críticos e pensadores, foi fundamental e gratificante. Eu sempre voltava para Minas enriquecida e isto promovia mudanças na minha arte.
Aos conhecimentos aprendidos eu incorporava o fazer artístico paciente e ininterrupto. Registrava, em folhas de papel e em cadernos hoje amarelecidos pelo tempo, o meu itinerário de artista. Até hoje eles existem e já se transformaram em esculturas e colagens, recordando a fase  construtiva.
Todas essas anotações estão sendo registradas num filme organizado pelo Instituto Maria Helena Andrés em parceria com a UFMG. Este filme é um relato da minha trajetória e convido a todos para assisti-lo em breve.
Também estendo meu abraço afetuoso a todos que estão recebendo homenagens e prêmios nessa grande celebração.
Abraços,
Maria Helena Andrés.

*Fotos de Marília Andrés

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segunda-feira, 19 de junho de 2017


ESCUTAR O CORPO

Dizem que a casa
É o corpo
Outros falam
Que o corpo é a casa.
Eu simplesmente
Paro
E escuto a voz do meu corpo.
Ele fala de mansinho
Ninguém escuta
Mas eu sinto
O desconforto
De uma tinta
Já mudei do óleo
Para o acrílico
Cortei a cor.
Cortei o gesto agressivo
Movido pela emoção
De sentir coisas
Erradas acontecendo
Ou o gesto vagaroso
Sensual ou sensível
De madrugadas violetas
Das flores se abrindo
Dos poentes vermelhos
Laranjas, rosas, verde bem claro
Azul violeta, amarelos
Cidades imaginárias
Castelos nas nuvens.
O corpo sente, se emociona
E chora
(Escuto a voz da Ivana cantando
 “Solamente una vez”
E me lembro do Luiz
Ele incentivava os filhos
A serem artistas
E todos são artistas)
Volto ao corpo
Ao ouvir a música do filho e do neto
A flauta chega aos ouvidos
Chega aos olhos
Chega às mãos
A tinta entra pelas
Unhas, entra no corpo
O amarelo cádmio
Azul de cobalto
Cores venenosas.
Meu corpo sentiu
Parei de usar cores
Entrei na dieta do
Preto e branco
Que era mais fácil
Mais direta.
A emoção chegava
Diretamente vinda do
Pincel ou da esponja.
Esponja de pedreiro
Escovão de faxineira.
Entrei para uma
De dona de casa e artista.
Pincéis?
Nunca mais!
Apenas o preto e o branco.
Lembrei-me da minha
Fase de papel veludo
Sempre pintada nas
Viagens pela América.
Fizeram tanto sucesso!
Acabaram com o tempo...
Agora ressurgiram de outra forma
Pintar com esponjas
É mais direto, mas a
Tinta entra pelos dedos.
Meus dedos doem
Meu corpo dói.
“O corpo fala”, dizia
Pierre Weil.
Sim, o corpo fala
Já dói nas costas
Os dedos sentem.
Parar de pintar?
Não.
Parar de usar tintas
Que poluem.
Voltar aos tempos do
Desenho em nanquim
Nos pequenos cartões.
Vou me distraindo e o tempo vai passando.
Vou desenhando sem parar
Tudo pequeno
Distribuo os desenhos.
Não vendi nenhum!
Volto aos tempos
Em que eu desenhava
Sem parar
Seguindo simplesmente
O desejo de criar.
De repente percebo que as
Mãos doem, as costas também.
Vou ter que parar?
Nunca!
Vou fazer outras coisas
Com as mãos
Pobres mãos...
Não podem ficar à toa
Contemplo as montanhas
Olho a paisagem
É a minha forma de
Meditar – ver, observar, sentir
Depois volto ao trabalho.
Só uso papel.
Sinto falta das cores
Uso papel colorido
Deixei os pincéis, as esponjas
As tintas.
Agora é a tesoura e o
Papel
Só recorto e colo.
Às vezes faço esculturas de papel
Brancas, pretas, coloridas.
Vou produzindo.
Quando canso, descanso.
Assim é a vida.
Sentir o corpo
Ele fala conosco
“body talk”
Não é que dá certo?
O corpo fala, adivinha, alerta.
Escuto a voz do corpo, é sempre a direção
Mais certa.
As mudanças não
Importam, acontecem.
A vida é uma constante mudança
Vou seguindo a voz
Do corpo até um dia
Parar.

*Fotos de arquivo

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segunda-feira, 12 de junho de 2017


UMA PEQUENA HISTÓRIA DE VIDA E ARTE II


Dando continuidade a esta pequena história, revejo quadros  da minha trajetória artística expostos nas paredes da casa do Maurício.

Em um dos quartos há uma “Via Sacra”, que foi um projeto para a ermida da Serra da Piedade; em outro um quadro da minha fase de astronautas.
Representando a fase construtivista, vejo nas paredes da sala uma das minhas “Cidades Iluminadas”, pintado em 1955 e que já correu Salões no Rio de Janeiro e Bienais em São Paulo. Essa fase é atualmente muito solicitada, procurada por colecionadores e marchands.

Olhando para outro quadro, lembro-me da minha fase de astronautas, exposta no Rio de Janeiro em 1969, no mesmo dia em que o Homem pisava pela primeira vez na Lua. Fui procurada naquela ocasião por diversos jornalistas que indagavam como eu poderia ter pintado paisagens lunares muito antes delas aparecerem na televisão. Vejo nesse quadro um foguete sendo lançado e uma nave espacial cheia de habitantes, em busca de outras “Terras”. Eu ouvia naquela época, incessantemente, as músicas de Frank Sinatra. Um dia cansei de tanto repetir o esmo LP e decidi colocar Frank Sinatra dentro de uma nave espacial para cantar em outros planetas...

Na sala há também um quadro da minha fase de “Mandalas”, todo em rosa. Os meus quadros de Mandalas foram feitas para finalizar todas as fases. Mandala sempre representa um círculo em que todas as faces são iguais. É um símbolo de integração, e  eu, naquela época, estava integrando todas as minhas fases, para começar a pintar em grandes espaços. Os painéis surgiram exatamente depois das Mandalas. Mandala é um símbolo cósmico muito usado pelos orientais em suas meditações. Os cristãos também adotam a forma circular, nos vitrais de Chartres,  Notre Dame e vários outros.

Há também na sala desta casa um desenho grande representando um veleiro. Minha fase de “Barcos” durou muitos anos e me incentivou a realizar minhas viagens pelo mundo. Meus desenhos gestuais nasceram daquele gesto espontâneo, feito sem nenhuma premeditação. Foram uma consequência dos meus primeiros “veleiros”, desenhados sobre papel veludo, com a quina do carvão para obter transparências. Muitas vezes, em minhas viagens, foram desenhados em cima do meu próprio colchão de dormir ou sobre o tapete do meu quarto de hotel. Fiz uma série deles nos EUA e continuei essa série no Brasil, substituindo o carvão pela esponja de pedreiro ou pelo escovão da faxineira.

O meu passado foi muito prazeroso, eu sempre gostei de pintar.

Pintei a vida toda, até que a tinta passou a me perturbar.

Hoje faço colagens, não uso mais tinta. Não preciso de fazer esforço para pintar grandes espaços, reduzi o tamanho dos quadros, não uso tintas e pincéis, só a tesoura e a cola. Matisse também, depois de certa idade, passou a fazer colagens. O importante é estar sempre ocupada, sempre produzindo algo novo, ao sabor do momento. Foram vários momentos variados como a vida, seguindo o próprio caminho, registrando histórias. Cada quadro guarda uma memória diferente e agora, aos 94 anos, consigo me lembrar do que eu sentia na ocasião em que pintava cada quadro.

São experiências, registros da minha passagem pelo Planeta, em busca de um caminho.
Arte e Vida andam juntas, sempre andaram, não é necessário fazer performances demonstrando que a arte e a vida são uma coisa só, é impossível separá-las. Minha vida de artista está registrada na arte, nas paredes e nos muros, nas tapeçarias.
Em 2000 houve um ponto de mutação na minha arte, que saiu das paredes buscando uma terceira via, a via tridimensional. Saíram para o 3D com ajuda do computador. Hoje ganham formas arredondadas, projetadas no papel em tiras coloridas.

O importante é seguir o próprio caminho. Vou seguindo o meu itinerário até que Deus me chame para outra dimensão. A arte é uma das maiores formas de sentirmos felicidade aqui na Terra. Registrando sentimentos vamos seguindo pela vida. Até quando? Não sei.

*Fotos de Maurício Andrés Ribeiro

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segunda-feira, 5 de junho de 2017


UMA PEQUENA HISTÓRIA DE VIDA E ARTE I

Estou descansando na casa do meu filho Maurício, em Brasília, revisitando o meu itinerário artístico. A minha primeira fase ali está, distribuída nas paredes da sala. Vejo em minha frente o primeiro barco, pintado em 1944, há 80 anos atrás!

Os anos foram passando mas os temas dos meus quadros se repetem, se transformam, retratam uma época feliz, as paisagens do mar, da cidade e da zona rural, uma constante em meu itinerário. 

O barco simboliza viagens e eu, desde aquele tempo, já antecipava minhas viagens. Muitos quadros dessa primeira fase ficaram na fazenda da Barrinha, onde tive um atelier rural na década de 60. Me lembro do dia em que meu cunhado Camil Caram veio me entregar este pequeno barco.
“Este quadro é histórico, deve ficar com um dos seus filhos”.
Realmente, ele está muito bem guardado com Maurício e Aparecida. Bem guardado e bem situado. 

Logo em seguida vou percorrendo nas minhas lembranças outro quadro, pintado na mesma época. É uma lembrança do meu quarto de solteira. Da minha janela eu registrei nesse quadro a paisagem que eu via em minha frente, a cidade de Belo Horizonte em 1944. Naquela época não existiam prédios altos em BH. Vejo no quadro um pedaço do Colégio Sagrado Coração de Jesus, telhados e mais telhados, o Colégio Padre Machado, muitas árvores e o céu de Minas se estendendo sobre as casas. Eu pintava paisagens e marinhas, depois voltava para o atelier da Escola no parque para pintar a nossa sala de aula com os alunos e alunas trabalhando. Guignard tinha uma assistente, Edith Bhering e eu consegui retratá-la atrás de uma aluna, corrigindo um quadro. Um voo pelo passado me reconduz ao tempo em que eu frequentava a escola e estava me libertando do academismo, para abraçar o modernismo.

Eu estudava na Escola Guignard quando conheci meu marido Luiz Andrés. Ele gostava de arte, antes de me conhecer conheceu meus quadros numa exposição. Naquela exposição, Luiz estava em companhia de seu amigo, o professor de filosofia, padre Orlando Vilela que naquela ocasião escrevia sobre arte.  Seu livro, “Realidade e Símbolo”, baseado nas ideias de Jacques Maritain era o meu livro de cabeceira da época, bem como “Cartas a um jovem poeta” de Rainer Maria Rilke.
Quando nos conhecemos, estudávamos juntos a filosofia de Maritain, assim como os poemas de Rabindranath Tagore, Paul Claudel e Murilo Mendes. Desde essa época, acompanhada por Luiz e sua irmã, Lourdes Resende, comecei a refletir sobre Arte e Espiritualidade. Dali nasceram os primeiros capítulos do meu livro “Vivência e Arte”, editado pela Agir em 1966. Naquela ocasião, eu participava de um grupo de jovens católicos chamado “Grupo da Vigília”, onde me convidaram para fazer palestras sobre Arte e Espiritualidade.

Depois de casada passei a frequentar a fazenda do meu sogro, perto de Entre Rios de Minas. Paisagens do interior, com festas juninas, casamento na roça e vários motivos rurais vieram povoar o meu imaginário de artista.

A alegria e a descontração de uma festa junina serviu de inspiração para outro quadro, que estou vendo na mesma sala.
Guignard gostava de festas juninas, balões voando pelo céu. A minha festa junina é um registro de festas populares muito comuns no interior.
As crianças me acompanhavam enquanto eu pintava e algumas vezes eram incluídas nos meus quadros. Gostavam de brincar no fundo do quintal com as galinhas e os cachorros da fazenda.

*Fotos de Maurício Andrés Ribeiro

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